Antracnose: como identificar a lesão e controlar a doença

Antracnose: como identificar a lesão e controlar a doença

A antracnose ataca fruto, folha e ramo, e se reconhece por um tipo de lesão bem particular: uma mancha escura de contorno definido que afunda em relação ao tecido ao redor. Ela avança quando calor e umidade andam juntos, o que torna o período chuvoso quente a fase de maior risco no quintal. Quem confunde a lesão com mancha bacteriana ou com queimadura de sol acaba escolhendo o manejo errado, e o erro custa a safra.

O que caracteriza a lesão

Antracnose não é uma doença só. O nome cobre um grupo de doenças causadas por fungos do gênero Colletotrichum, com espécies diferentes atacando hospedeiros diferentes. No quintal, o que se identifica é o grupo, pelo tipo de lesão, e isso basta para o manejo, porque as medidas de campo são as mesmas em todos eles.

Manga com lesões escuras e deprimidas de antracnose sobre a casca
A lesão da antracnose é escura, deprimida e de borda definida, e cresce em manchas que se juntam. No fruto ela costuma aparecer só depois da colheita, quando ele amadurece.

O fungo entra pela superfície do tecido, muitas vezes por um ferimento ou pelo ponto onde a água fica parada, e mata as células em volta do ponto de entrada. A morte do tecido em profundidade é o que produz a marca registrada da doença.

Depressão. A mancha afunda. Passar o dedo sobre a lesão revela um degrau: a área doente fica abaixo do nível da casca ou do limbo sadio. Esse relevo negativo é o traço mais confiável.

Bordo escuro e nítido. A lesão tem contorno bem marcado, mais escuro que o centro, e separa com clareza o tecido morto do tecido vivo. O miolo costuma ser mais claro, castanho ou acinzentado.

Anéis concêntricos. Em lesão que cresceu, o avanço deixa faixas em círculos, uma dentro da outra, como marca de crescimento.

Massa de esporos. Em tempo úmido, o centro da lesão ganha pontinhos que exsudam uma massa pegajosa de tom salmão, alaranjado ou rosado. É o sinal de campo mais forte a favor do diagnóstico, e a identificação da espécie de fungo envolvida só sai de análise de laboratório, que o manejo doméstico não exige.

Crescimento com chuva. A lesão avança em surtos, coincidindo com períodos de chuva e calor, e fica estacionada quando o tempo seca.

Onde a doença aparece

No fruto. É onde o dano dói mais. Começa como ponto escuro pequeno, cresce em mancha circular deprimida e amolece a polpa por baixo. Frutífera de quintal como goiabeira e pitangueira sofre com o quadro, sobretudo em fruto que amadurece durante a chuva. Frequente também é o fruto que sai do pé aparentemente sadio e desenvolve a lesão dias depois, porque a infecção ficou latente até a maturação.

Na folha. Manchas de bordo escuro, às vezes com halo amarelado, que crescem, se juntam e podem rasgar no centro, deixando um furo de bordas secas. Concentram-se na ponta e na borda do limbo, que é onde a gota de água fica presa.

No ramo e no pecíolo. Lesão alongada e afundada que escurece o ramo, estrangula a passagem de seiva e faz a ponta secar de fora para dentro. Ramo com lesão que dá a volta completa perde tudo o que está acima dela.

Antracnose, mancha bacteriana ou queima de sol

Os três produzem mancha escura em folha e em fruto. A distinção passa por três perguntas simples.

A lesão afunda? Antracnose afunda, com degrau perceptível ao toque. Mancha bacteriana costuma ficar no plano da folha, e a queimadura de sol seca o tecido sem criar o mesmo degrau bem definido.

O contorno respeita alguma estrutura? Antracnose tem contorno arredondado, com bordo escuro nítido, e não se prende ao desenho das nervuras. Mancha bacteriana tende a formar área de contorno anguloso, encaixada entre nervuras, muitas vezes com aspecto encharcado e translúcido quando observada contra a luz, além de halo amarelo largo. Esse contorno anguloso travado nas nervuras também aparece no míldio, que difere por produzir mofo no verso da folha.

Onde a lesão está na planta? Queimadura de sol aparece na face voltada para o sol da tarde, no lado exposto do fruto, e costuma pegar planta colocada em posição mais forte do que ela suporta. Antracnose não escolhe a face exposta: aparece onde a água escorreu e ficou parada, inclusive na parte sombreada.

Um teste adicional funciona bem em fruto. Deixar o fruto suspeito em local fechado e úmido por alguns dias: se a lesão desenvolver a massa pegajosa de tom salmão no centro, o quadro é compatível com antracnose. Queimadura de sol nunca produz isso.

O que favorece a doença

O esporo se espalha pela água. Chuva batendo no solo respinga esporo da folha caída para a folha de baixo, e a rega com mangueira faz o mesmo serviço. Folhagem que fica molhada por muitas horas seguidas dá ao fungo o tempo de que ele precisa para germinar e penetrar.

Ferimento é porta de entrada. Fruto picado por inseto, ramo com corte malfeito e folha rasgada pelo vento infectam com mais facilidade.

Adensamento agrava tudo. Copa fechada e planta encostada em planta seguram umidade, reduzem a circulação de ar e prolongam o tempo de folha molhada.

Restos de poda e fruto mumificado deixados no chão ou pendurados na copa funcionam como fonte permanente de esporo para a safra seguinte.

Manejo

Eliminar a fonte. Fruto com lesão, fruto mumificado preso ao ramo, folha caída sob a copa e ramo seco saem da área e vão para o lixo, nunca para a composteira nem para o pé de uma planta vizinha.

Podar para abrir a copa. Cortes que arejam o interior da planta reduzem o tempo de folhagem molhada. Usar tesoura de poda limpa, desinfetando a lâmina entre uma planta e outra, evita transportar o fungo no próprio corte. Poda feita em período seco cicatriza melhor.

Mudar o jeito de regar. Água no substrato, não na folhagem, e rega cedo, para o que respingar secar durante o dia. O texto sobre o melhor horário para regar as plantas explica por que o horário muda o risco de doença foliar.

Cobrir o solo. Camada de material sobre o solo reduz o respingo que carrega esporo de baixo para cima.

Espaçar as plantas. Distância entre vasos e entre canteiros vale tanto quanto qualquer aplicação.

Antes de qualquer produto. Fungicida exige leitura integral do rótulo, luva e óculos, proteção respiratória quando o fabricante indicar, respeito ao intervalo entre aplicação e colheita em planta que dá alimento, aplicação fora do sol forte e afastamento de crianças e animais até a secagem. Só depois disso vem o uso. Produtos cúpricos e a calda sulfocálcica são opções tradicionais em quintal, ambas com caráter preventivo e com restrições próprias de aplicação. Produtos à base de Trichoderma atuam por antagonismo e entram como reforço do conjunto.

Aceitar o que não volta. Tecido lesionado não cicatriza nem recupera a cor. O critério de sucesso é o crescimento novo saindo limpo, não o desaparecimento da mancha antiga.

Perguntas frequentes

A doença passa de uma planta para outra?
Passa, por respingo de água, por ferramenta contaminada e por resto vegetal doente deixado no chão. Desinfetar a lâmina entre plantas e recolher o material caído são medidas de contenção.

Fruto com uma mancha pequena pode ser consumido?
A lesão costuma ir mais fundo do que aparenta e vem acompanhada de polpa amolecida por baixo. Fruto com lesão instalada não vale o aproveitamento, e o descarte fechado evita realimentar o ciclo.

Por que a mancha só apareceu depois da colheita?
Porque a infecção pode permanecer latente no fruto verde e se manifestar quando ele amadurece. O fungo entrou ainda no pé, e a lesão apareceu depois.

Fungicida sozinho resolve?
Não, porque a doença é conduzida pelo ambiente. Sem abrir a copa, corrigir a rega e retirar a fonte de esporo, a aplicação vira rotina sem fim. O panorama de fungos em planta de casa está no guia de como tratar fungo branco nas plantas.

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