Cisterna: como guardar água da chuva sem criar problema

Cisterna: como guardar água da chuva sem criar problema

Uma cisterna é o reservatório que recebe a água da chuva escoada pelo telhado e a guarda para uso no jardim. A ideia é simples e a execução tem armadilhas: água armazenada sem vedação vira criadouro de mosquito, e água que desce do telhado carrega folha, fezes de pássaro e poeira. Os dois problemas têm solução conhecida, e ela precisa estar no projeto desde o primeiro dia.

O alerta que vem antes de qualquer instalação

Água parada e acessível é local de postura do mosquito transmissor da dengue, da zika e da chikungunya. Um reservatório mal fechado no quintal é pior que caixa d’água esquecida, porque tem volume maior e fica meses no mesmo lugar.

Três exigências resolvem, e nenhuma delas é opcional:

Vedação total. Tampa que encosta em todo o perímetro, sem fresta, sem vão para passar mangueira, sem furo de improviso. Tampa apoiada de leve não conta como vedada, porque o mosquito passa por abertura mínima.

Tela em toda entrada e toda saída. O tubo que traz água da calha, o extravasor e qualquer respiro precisam de tela de malha fina, fixada de modo que não solte. É o que barra o inseto adulto pelo único caminho que sobra depois da tampa.

Rotina de inspeção. A borracha resseca, a tela enferruja, o vento entorta a tampa. Calha entupida com folha também acumula água parada e cumpre o mesmo papel de criadouro, com a desvantagem de ficar fora do campo de visão.

Onde já existe larva no reservatório, esvazie, escove as paredes e refaça a vedação antes de voltar a captar. Em caso de infestação no bairro, o agente de endemias do município é quem orienta.

Para que serve essa água e para que ela não serve

Água de chuva captada de telhado não é potável. Ela lava a superfície por onde passa, e essa superfície tem poeira, fuligem, folha em decomposição e dejeto de ave. Filtro de tela não corrige isso: tela retira sólido grosseiro e não trata contaminação microbiológica.

Serve para rega de jardim, de gramado e de canteiro, para lavagem de piso, calçada e ferramenta e para o balde da faxina de quintal. É também a água que o jardim prefere: chuva não traz o cloro nem os sais dissolvidos da água tratada, e o acúmulo desses sais no vaso é problema real, descrito em salinidade do solo.

Não serve para beber, cozinhar, escovar dente, lavar louça, tomar banho nem encher piscina. Também não é a escolha para lavar alimento que vai cru para a mesa, o que inclui a folha colhida na horta orgânica. Para rega de horta, a orientação prudente é aplicar a água no solo, junto à base da planta, e não sobre a parte que será consumida.

O descarte das primeiras águas

Este é o conceito central de qualquer captação bem feita, e o mais ignorado. A primeira porção de água que desce quando a chuva começa é a mais suja de todas, porque leva embora tudo o que se depositou no telhado e na calha desde a última chuva. Depois dessa lavagem inicial, a água que continua chegando é bem mais limpa.

O dispositivo que separa uma coisa da outra é o descarte de primeiras águas, ou first flush. Na versão mais comum, um tubo vertical fechado na base recebe o começo da chuva; quando ele enche, uma boia veda a passagem e a água passa a seguir para o reservatório.

Esse tubo precisa ser esvaziado entre uma chuva e outra, por registro na base ou por gotejador calibrado, senão chega cheio na chuva seguinte e deixa de cumprir a função. Ele também é água parada e exige a mesma tela e a mesma vedação do reservatório principal.

Quanta água desviar sai do projeto. O critério que o morador observa sozinho é outro: telhado sob árvore, em rua de muito pó ou perto de fonte de fumaça precisa desviar mais que telhado limpo e exposto.

As peças do sistema, na ordem em que a água passa

Telhado e calha. Superfície de captação e coleta. Telhado com pintura descascando contamina o que passa por ele.

Grade ou filtro de folhas. Retém folha e galho antes do tubo de descida.

Descarte das primeiras águas. A etapa descrita acima.

Reservatório. Fechado, opaco ou instalado ao abrigo da luz, porque luz dentro d’água faz proliferar alga. Precisa de base firme e nivelada: água cheia pesa muito, e reservatório apoiado em piso irregular trinca.

Extravasor. O ladrão que escoa o excesso quando enche. Sem ele, a água transborda pela tampa e desmancha a vedação. A saída precisa ser telada e direcionada para local que drene, longe de fundação, e é uma boa oportunidade para alimentar um lago artificial ou uma área de infiltração.

Saída de uso. Reservatório enterrado depende de bomba; elevado, trabalha por gravidade e dispensa energia, o que basta para encher regador. A pressão baixa limita o que se pode acoplar: irrigação por gotejamento trabalha bem assim, enquanto aspersor de jardim em geral pede pressão que só a bomba entrega.

O que observar antes de dimensionar

Litragem de reservatório e volume de captação são conta de projeto, feita com dados do local. O que cabe ao morador levantar antes de procurar quem faça a conta:

Área de telhado aproveitável. A projeção horizontal do telhado, e não a área do terreno. Águas voltadas para lados diferentes podem render só uma parte captável.

Uso pretendido. Regar canteiro pequeno pede reservatório de outra ordem de grandeza que manter gramado extenso na estiagem.

Espaço e apoio. Onde o reservatório cabe, se a base aguenta o peso cheio, se há queda suficiente para a água chegar por gravidade ao ponto de uso e por onde o extravasor vai escoar.

Regime de chuva da região. Local com estiagem longa precisa de armazenamento maior para atravessar o período seco.

Regra municipal. Muitas cidades têm exigência própria para reservatório de retenção em lote novo.

Com esses dados na mão, a conversa com projetista, instalador ou órgão técnico rende.

Manutenção

Limpeza de calha e de filtro de folhas, esvaziamento do tubo de descarte, verificação da tela e da tampa, e limpeza interna do reservatório quando o fundo acumular sedimento. Cheiro ruim, água escura ou lodo na parede indicam entrada de luz, entrada de matéria orgânica ou falha no descarte inicial.

Do lado do consumo, a rega no início da manhã ou no fim da tarde, discutida em melhor horário para regar as plantas, reduz a perda por evaporação e faz o volume guardado render mais. Para uso pontual em vasos, o vaso autoirrigável resolve parte da demanda sem exigir estrutura.

As contas que você mesmo pode fazer

O dimensionamento final é de projetista, mas duas contas simples dão a ordem de grandeza e evitam comprar um reservatório grande demais ou pequeno demais.

A primeira é quanto o telhado capta. Um milímetro de chuva sobre um metro quadrado rende um litro de água — essa equivalência é exata e é toda a base do cálculo. Então o volume de uma chuva é a área do telhado em metros quadrados, medida pela projeção horizontal, multiplicada pela chuva em milímetros, multiplicada por um fator de perda em torno de 0,8, que desconta o que evapora, molha a telha e escorre fora da calha.

Na prática: um telhado de 60 metros quadrados, numa chuva de 30 milímetros, entrega perto de 1.400 litros. Isso costuma surpreender quem imaginava encher a cisterna com uma garoa — e também quem achava que precisaria de um reservatório de dez mil litros para um jardim pequeno.

A segunda conta é do outro lado, o do consumo. Meça quantos regadores ou quantos minutos de mangueira você usa por semana, converta para litros e multiplique pelo número de semanas que costuma passar sem chuva significativa na sua região. Esse número, e não o tamanho do telhado, é o que define o reservatório útil: guardar mais água do que se consegue usar entre chuvas só aumenta o tempo em que ela fica parada.

Para o descarte das primeiras águas, a referência mais usada é de um a dois litros por metro quadrado de telhado — no exemplo acima, algo entre 60 e 120 litros. Telhado sob árvore, em rua de terra ou perto de fonte de fumaça pede o valor maior.

Que telhado serve, e qual reservatório escolher

Nem toda cobertura entrega água aproveitável, e essa é uma decisão que vem antes de comprar qualquer peça.

Telha cerâmica e telha de concreto são as mais tranquilas. Telha metálica funciona bem e aquece a água, o que não atrapalha o uso no jardim. Telhado com pintura antiga descascando contamina com fragmento de tinta, e cobertura de fibrocimento antiga, daquelas com amianto, é caso de não aproveitar para nada que envolva contato — nem para lavar piso onde criança engatinha. Telhado com placa solar, calha suja de fuligem ou vizinhança de chaminé industrial pede descarte inicial maior.

Sobre o reservatório, três formatos aparecem. O de polietileno, aquela caixa d’água comum, é o mais barato e o mais fácil de instalar, e exige ser opaco ou ficar ao abrigo da luz, porque alga cresce em qualquer água com claridade. O de fibra de vidro é mais durável e mais caro. E o de concreto, quase sempre enterrado, resolve espaço e mantém a água fresca, com a contrapartida de exigir bomba e de ser o mais caro de instalar e o mais difícil de inspecionar.

Elevado ou enterrado é a decisão que mais muda o uso diário. Elevado trabalha por gravidade e dispensa energia, mas a pressão é baixa: serve para encher regador e para gotejamento, e não para aspersor nem para lavar carro com jato. Enterrado guarda mais e ocupa menos, e depende de bomba — o que significa que numa falta de luz a água guardada fica inacessível.

Se a escolha for a caixa d’água adaptada, o cuidado extra é a tampa: as de rosca ou com trava vedam de verdade, as apenas apoiadas não, e é essa fresta que devolve o problema do mosquito descrito no começo desta página.

Perguntas frequentes

Dá para beber a água da chuva guardada no quintal?
Não. A água escoa pelo telhado e carrega poeira, fuligem e dejeto de ave. Tela e filtro retiram sólido grosseiro e não tornam a água potável. O uso seguro é rega e limpeza externa.

Como impedir que o reservatório vire criadouro de mosquito?
Tampa vedada em todo o perímetro, tela de malha fina em toda entrada, saída e respiro, e inspeção periódica dessas peças. Calha entupida e tubo de descarte cheio entram na mesma rotina.

O que é descarte das primeiras águas e por que ele importa?
É o desvio da porção inicial da chuva, que lava o telhado e chega mais suja. Sem esse desvio, toda a sujeira acumulada desde a última chuva entra no reservatório e apodrece lá dentro.

Pode regar horta com água da chuva captada do telhado?
Pode, aplicando no solo junto à base da planta e evitando molhar a parte que vai ser consumida crua. Lavagem de folha para consumo se faz com água potável.

Precisa de bomba para usar a água guardada?
Depende da posição. Enterrado, sim. Elevado, a gravidade atende regador e gotejamento, mas costuma não dar pressão para aspersor.

Foto de capa: original de Arlington County, via Flickr, sob CC BY-SA 2.0. Imagem recortada para 16:9 e distribuída sob a mesma licença.

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